Cerca de duas dezenas de pessoas manifestaram-se no centro de Lisboa contra o julgamento do político moçambicano Venâncio Mondlane, marcado para 17 de Novembro no Tribunal Supremo de Moçambique.
Os participantes, na sua maioria ligados à Aliança Nacional por um Moçambique Livre e Autónomo (ANAMOLA), partido fundado por Venâncio Mondlane, percorreram o trajecto entre a Praça dos Restauradores e o Terreiro do Paço.
Durante a marcha, os manifestantes exibiram cartazes e entoaram várias palavras de ordem, entre elas “julgar Venâncio é julgar o povo”, “podem nos matar, não vamos desistir” e “salvem Moçambique, Moçambique é nosso”.
A coordenadora da ANAMOLA em Portugal, Joana Gemo, afirmou aos jornalistas que os participantes estavam no local para manifestar apoio a Mondlane e defender aquilo que consideram ser os interesses de Moçambique.
“Estamos aqui por ele e por Moçambique”, afirmou, acrescentando que, na sua perspectiva, o político não cometeu qualquer crime. Segundo Gemo, Mondlane apenas convocou manifestações, às quais a população aderiu para reivindicar questões relacionadas com o bem-estar social, incluindo problemas ligados à falta de escolas, alimentação e condições de vida.
Defesa diz ter provas a favor de Mondlane
Na sexta-feira, Venâncio Mondlane confirmou à Lusa que estará presente no julgamento, no qual poderá enfrentar uma pena superior a 20 anos de prisão.
O processo resulta de acusações do Ministério Público relacionadas com as manifestações pós-eleitorais. Entre os crimes imputados estão apologia pública ao crime, incitamento à desobediência colectiva, instigação pública à prática de crime, instigação ao terrorismo e incitamento ao terrorismo.
Joana Gemo afirmou que o fundador da ANAMOLA “não tem nada a temer” e que irá demonstrar em tribunal que não cometeu os crimes de que é acusado.
A dirigente disse ainda que o partido dispõe de vídeos que, segundo ela, mostram que Mondlane não terá incitado à violência durante o período de contestação.
Gemo declarou também confiar no trabalho dos juízes, considerando que são profissionais preparados para exercer a função judicial.
Receio de represálias em Moçambique
A coordenadora da ANAMOLA em Portugal atribuiu a participação relativamente reduzida na manifestação a dois factores.
Por um lado, explicou, muitas pessoas tiveram de trabalhar. Por outro, alguns apoiantes teriam receado que familiares residentes em Moçambique pudessem sofrer represálias devido à participação no protesto.
Contexto político
Venâncio Mondlane não reconheceu os resultados das eleições de Outubro de 2024, que deram a vitória a Daniel Chapo, candidato da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo).
Na sequência da contestação eleitoral, Mondlane liderou uma onda de manifestações pós-eleitorais que se prolongou por aproximadamente cinco meses e foi acompanhada por centenas de mortes, além de episódios de saques e destruição.
Segundo organizações não-governamentais, os protestos provocaram mais de 400 mortes, sobretudo em confrontos com a polícia.
Mondlane esteve em Lisboa, mas não participou na marcha
Apesar de a manifestação ter sido organizada em Lisboa em apoio ao político, Venâncio Mondlane não participou no protesto.
O fundador da ANAMOLA explicou anteriormente que tinha uma agenda privada importante em Lisboa, razão pela qual não poderia estar presente. Ainda assim, manifestou o desejo de que a marcha decorresse de forma ordeira e que servisse de exemplo para Moçambique.
Na sexta-feira, Mondlane esteve em Lisboa com uma agenda política e institucional que incluiu um encontro com o ministro português dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel. Na ocasião, entregou-lhe um dossiê sobre alegadas violações dos direitos humanos em Moçambique.
A marcha deste sábado decorreu sem incidentes e não foi necessário interromper o trânsito na zona por onde passaram os manifestantes.
