Messias Uarrene

Secretário-geral do ANAMOLA diz que Presidente deve “trabalhar mais e falar menos”

O secretário-geral do ANAMOLA, Messias Uarreno, foi recebido esta quinta-feira nos estúdios da Rádio França Internacional (RFI), onde falou sobre os desafios do partido, a situação política em Moçambique e o trabalho que tem desenvolvido em representação da organização. O ANAMOLA, fundado em 2025 e liderado por Venâncio Mondlane, reivindica a vitória nas eleições do ano anterior e esteve no centro das manifestações que marcaram o final de 2024 e o início de 2025.

Durante sua passagem por Paris, Uarreno reuniu-se com várias entidades diplomáticas e organizações ligadas aos direitos humanos e à democracia. Segundo afirmou, o principal objetivo da deslocação foi ampliar parcerias internacionais, sobretudo num momento em que o partido procura consolidar a sua presença nacional.

Uarreno descreveu o ANAMOLA como um partido “jovem e de massas”, que enfrenta desafios próprios de uma organização recém-criada. Entre as dificuldades, destacou a necessidade de formação dos seus quadros e a limitação de recursos financeiros. Explicou ainda que a estrutura do partido depende de contribuições simbólicas dos membros e de apoios de simpatizantes, que têm permitido manter algumas das atividades essenciais.

Um dos maiores obstáculos, segundo Uarreno, é o “espaço político reduzido” devido à alegada partidarização das instituições do Estado. Para o dirigente, a luta pela despartidarização tem sido uma prioridade assumida pelo presidente Venâncio Mondlane. “Enquanto as instituições forem capturadas, a ação política fica fragilizada”, afirmou.

O secretário-geral explicou também as prioridades imediatas do partido, que incluem a apresentação de propostas de revisão legal com foco na eliminação de fragilidades que, segundo o ANAMOLA, permitem irregularidades eleitorais recorrentes. Uarreno destacou que o partido está a preparar-se para as eleições autárquicas de 2028 e para as gerais de 2029, consideradas decisivas para a afirmação da posição política do ANAMOLA.

Questionado sobre o diálogo inclusivo promovido este ano pelo Governo, Uarreno criticou a exclusão do ANAMOLA do processo. Disse que o partido recolheu contribuições populares e entregou-as formalmente à COTE, defendendo que ainda há tempo para corrigir a exclusão.

Falando sobre a recente comunicação do Presidente da República, Daniel Chapo, Uarreno rejeitou a justificativa presidencial de que os incidentes pós-eleitorais condicionaram o desempenho do Governo. Criticou os gastos em viagens oficiais e afirmou que recursos poderiam ter sido canalizados para saúde, educação e serviços básicos. “É tempo de o Presidente trabalhar mais e falar menos”, declarou.

A respeito do terrorismo em Cabo Delgado, Uarreno lamentou as perdas humanas e defendeu que o problema poderia ter sido mais bem gerido internamente. Criticou o discurso governamental que classifica a situação como controlada e alertou para a expansão do terrorismo para zonas da província de Nampula. Quanto à eventual retoma das operações da TotalEnergies, considerou legítimo o pedido da empresa por melhores condições, mas defendeu que investimentos não devem ser travados.

Sobre a saída de alguns membros do partido, principalmente em Cabo Delgado, Uarreno disse que o fenómeno é comum em partidos em fase inicial e acusou adversários políticos de tentar fragilizar a imagem do ANAMOLA. Considerou que muitos dos que saíram estavam motivados por expectativas pessoais e não por divergências políticas substanciais.

Questionado sobre os processos judiciais contra Venâncio Mondlane, o secretário-geral reiterou que as acusações são infundadas e que o líder apenas cumpriu o seu dever político ao mobilizar cidadãos durante as manifestações. Disse ainda que o partido está a formar novos quadros capazes de assegurar a continuidade da agenda política, independentemente de eventuais desfechos judiciais.

Sobre as relações internacionais do partido, Uarreno confirmou contactos com várias forças políticas em Portugal, incluindo o Chega, a Iniciativa Liberal e o PSD. Sublinhou que o ANAMOLA mantém diálogo com diferentes partidos que defendem a democracia e que esse apoio tem sido importante, sobretudo no acompanhamento dos processos relacionados com contestações eleitorais.

Quanto à orientação ideológica do ANAMOLA, Uarreno afirmou que o partido ainda está a definir a sua posição no espectro político, preferindo concentrar-se em soluções para as necessidades das famílias moçambicanas. Disse que a definição oficial será apresentada oportunamente.

No encerramento da entrevista, Messias Uarreno apresentou os seus votos para 2026, desejando maior estabilidade internacional, continuidade das parcerias estratégicas e esperança renovada para as famílias moçambicanas. Reafirmou que o ANAMOLA pretende ser um partido comprometido com a verdade, com a mudança e com a melhoria das condições de vida no país.

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