MISAU Acusado de Encobrir Campanhas de Vacinação Inexistentes

A campanha de vacinação contra a poliomielite, realizada entre os dias 8 e 12 de julho, foi amplamente divulgada pelo Ministério da Saúde (MISAU) com mensagens veiculadas por operadoras de telefonia móvel, incentivando os pais a vacinarem seus filhos para garantir proteção contra a paralisia infantil. Porém, a realidade no terreno expõe um quadro muito diferente, marcado por falsificações e negligência sistemática.

Em várias regiões do país, como o bairro Mutauanha, em Nampula, brigadistas responsáveis pela imunização foram vistos aplicando um método desonesto: em vez de vacinarem as crianças, limitavam-se a colar cartões de vacinação nas portas das residências, sem sequer verificar ou consultar os responsáveis pelos menores. A vacina não era aplicada e o consentimento dos pais, ignorado. Essa prática transforma um ato fundamental de saúde pública em mero dado estatístico para satisfazer relatórios internacionais, enquanto as crianças reais ficam desprotegidas.

Este comportamento ultrapassa a incompetência e torna-se um verdadeiro crime moral e ético, pois compromete o direito básico à saúde e põe em risco a vida das crianças. Dados da UNICEF revelam que quase metade das crianças moçambicanas sofre de atraso no crescimento, um reflexo claro da negligência institucional que atravessa diversas áreas sociais.

A discrepância entre o discurso oficial e a prática concreta é gritante. Enquanto o governo exibe slogans sobre os direitos das crianças em fóruns internacionais, no país as campanhas se resumem a simulações e estatísticas fabricadas. O fenômeno é similar ao conhecido “fetichismo dos números” visto em outras áreas, como o excesso de eleitores em certas províncias, que ultrapassa o número real de adultos residentes.

O Ministério da Saúde, mais do que garantir a imunização, parece hoje mais dedicado a manter aparências e produzir relatórios que não correspondem à verdade. A suspensão de apoios por parte de agências internacionais como a USAID, devido à falta de transparência, não tem gerado mudanças efetivas, mas apenas mais propaganda e ausência de punições aos responsáveis pela fraude.

Se em Nampula essa realidade é visível e denunciada, é preocupante imaginar o que ocorre em zonas mais remotas e esquecidas, como Quiterajo, Ibo, Quissanga (Cabo Delgado), Lupilichi, Mbuyo (Niassa), Maluera (Tete) e Liundo (Matutuíne), onde a fiscalização é ainda mais precária.

A poliomielite é uma ameaça real e a vacinação, um dever inadiável. Porém, fingir que a vacina é aplicada, quando na verdade não ocorre, é como distribuir um remédio falso para pacientes terminais — uma falsa esperança que condena as crianças a riscos evitáveis.

Por isso, esta denúncia exige:

  • Auditorias independentes e públicas em todas as campanhas de vacinação recentes;

  • Responsabilização criminal e administrativa dos brigadistas e supervisores envolvidos em fraudes;

  • Reformulação e fortalecimento dos mecanismos de fiscalização do MISAU;

  • Intervenção urgente da Assembleia da República, organismos de direitos humanos e parceiros internacionais.

A verdadeira enfermidade deste país não é a poliomielite, mas sim o cinismo institucional, a burocracia insensível e a governação desconectada da população. Que esta denúncia sirva como um chamado ético e patriótico, para que a dor das crianças invisíveis não seja apenas mais um número nos relatórios, mas uma questão real de justiça e dignidade.

Se a justiça existir, que ela ouça este clamor. Se não, que ao menos ressoe na consciência daqueles que desejam um dia governar com responsabilidade e dignidade.

Outras Notícias do Autor

Mototaxista Assassinado em Ancuabe: População Faz Justiça com as Próprias Mãos

O Retorno Polêmico de Hussen Gulam Mahomed a Moçambique

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *