Quando o brilho de Dubai perde o encanto, até mesmo os fugitivos optam por voltar para casa — ou para enfrentar a justiça. Este é o caso de Hussen Gulam Mahomed, irmão do conhecido Norolamin Gulam Hassan, que, conforme reportado pelo Jornal Savana em 11 de julho de 2025, aterrou recentemente no Aeroporto Internacional de Maputo, talvez para um encontro nada amigável com a Procuradoria-Geral da República (PGR), que já o esperava com as medidas legais preparadas.
Hussen Gulam não retornou como um herói, mas como peça central de um intricado esquema envolvendo documentos falsificados, empresas fictícias, fraudes fiscais, cúmplices dentro de bancos, despachantes criativos e contas offshore escondidas, que colocam em xeque a integridade financeira do país.
O enigmático Grupo Maiaia, que há muito tempo assombra as ruas de Nacala, Maputo e Nampula, reaparece no cenário nacional — não por força de sua influência empresarial, mas por sua ligação aos maiores escândalos de corrupção e crime económico em Moçambique.
De acordo com a PGR, Hussen utilizava empresas de fachada para enviar milhões de dólares para paraísos fiscais, da mesma forma que um cidadão comum paga por uma simples compra. No entanto, os bens supostamente importados nunca chegaram ao território nacional. Trata-se, portanto, de uma fraude de exportação de capitais, da confiança pública e da paciência dos cidadãos.
Essa história não é nova: em 2013, os irmãos Hussen e Norolamin fugiram para Portugal, deixando um rombo de cerca de 50 milhões de dólares nos cofres do sistema bancário nacional — uma dívida que jamais foi quitada. Desde então, as fachadas comerciais permanecem em Nampula enquanto Maputo carrega o peso das dívidas incobráveis.
O que intriga é o motivo do regresso de alguém que escapou carregando um império ilícito. Seria ingenuidade? Confiança excessiva? Ou talvez uma promessa tácita de impunidade — um cenário infelizmente recorrente em Moçambique, onde crimes de colarinho branco são disfarçados em discursos sobre empreendedorismo e, não raramente, recompensados com honrarias?
A PGR revelou que já são 62 arguidos envolvidos, entre pessoas físicas e jurídicas. Um verdadeiro espetáculo de corrupção, onde o sistema parece ser conivente. É difícil entender como advogados, despachantes e funcionários bancários participaram deste esquema sem que o Estado, tão rigoroso com pequenos infratores, tenha conseguido detectar e agir contra estas práticas por anos.
Conclusão
Este caso é um exemplo contundente das fragilidades econômicas, jurídicas e morais que corroem o país. A perda de confiança nas instituições é o efeito mais grave da lavagem de capitais e da impunidade generalizada. A cada fuga milionária, perde-se um pouco mais da credibilidade da justiça, da regulação económica e da soberania fiscal do Estado.
Enquanto isso, alguns dos irmãos de Hussen já recuperaram a liberdade, talvez por excesso de garantias judiciais ou falta de espaço em prisões de alta segurança. Em Moçambique, existem ladrões que roubam para sobreviver e ladrões que desfrutam dos lucros do país — e ainda assim mantêm lugar cativo na democracia.
O cidadão comum continua a pagar impostos, sem acesso a hospitais dignos, estradas seguras ou tribunais imparciais. Os milhões desviados poderiam ter sido investidos em vacinas, escolas ou equipamentos para as forças de segurança, agora utilizadas para controlar quem desafia os donos do saque.
Por fim, resta a dúvida se este caso seguirá o destino de muitos outros: esquecido pela justiça ou preso em processos formais de fachada, até que novas eleições ou interesses políticos exijam o retorno de antigos patrocinadores.
Este é o retrato de um país onde o crime compensa — inclusive o crime de guerra, que termina por integrar terroristas nas negociações políticas, amnistiando-os antes mesmo do desarmamento, e reintroduzindo-os na elite econômica e política, sem nunca passar pela justiça verdadeira.
