O sector bancário moçambicano volta a ser abalado por denúncias de más práticas laborais. Desta vez, os holofotes estão voltados para o Access Bank Moçambique, instituição resultante da recente fusão com o BancABC e sob domínio de capital nigeriano. Relatos de trabalhadores apontam o banco como palco de violações sistemáticas dos direitos laborais, com destaque para a atuação de gestores expatriados.
De acordo com o Sindicato Nacional dos Empregados Bancários (SNEB), as queixas têm sido constantes. “Recebemos denúncias, mas quem tem poder de intervenção é o Ministério do Trabalho. Infelizmente, não temos visto qualquer ação concreta por parte da Inspeção do Trabalho”, lamentou Ramiro Simbe, secretário-geral do sindicato.
Internamente, o ambiente é descrito como tóxico: excesso de carga horária, pressão psicológica, avaliações arbitrárias e falta de reajuste salarial são algumas das situações relatadas por funcionários. Um dos pontos mais sensíveis refere-se à recusa do banco em realizar o ajuste salarial anual, medida comum no setor para compensar os efeitos da inflação. Apesar dos lucros apresentados recentemente, a administração justificou a recusa com supostos problemas financeiros.
“Não é um aumento, é a reposição do poder de compra”, disse um trabalhador sob anonimato. “É revoltante ver o banco negar algo tão básico enquanto lucra visivelmente.”
As denúncias também indicam represálias contra tentativas de organização sindical dentro da instituição. O delegado sindical do banco teria sido silenciado pela administração, colocando em risco a defesa coletiva dos trabalhadores. O sindicato confirma ter recebido uma carta anónima detalhando os abusos e afirma que uma equipa foi enviada para averiguar os factos.
Tentativas da imprensa para ouvir a administração do Access Bank não tiveram resposta. Também a Inspeção Geral do Trabalho e o Banco de Moçambique, entidades responsáveis pela fiscalização e regulação, permanecem em silêncio, mesmo após terem sido formalmente informadas das alegações.
Entre os nomes mais mencionados nas denúncias está o do administrador Chiwetalu Obikwelo, cidadão nigeriano, apontado como principal responsável pela gestão acusada de ignorar deliberadamente a legislação laboral do país. Segundo funcionários, ele estaria a cultivar uma cultura de autoritarismo e desrespeito aos trabalhadores moçambicanos.
Essa situação, porém, não é um caso isolado. Reflete um padrão crescente na banca moçambicana, onde executivos estrangeiros dominam os cargos de decisão, enquanto os profissionais locais são relegados a funções secundárias, com menor remuneração e quase nenhuma influência institucional. A ausência de políticas que garantam quotas de liderança para moçambicanos agrava o cenário.
O caso do Access Bank reacende o debate sobre a soberania laboral e a urgência de reformas profundas no sistema financeiro moçambicano. O capital externo, que deveria servir ao desenvolvimento, parece estar a perpetuar desigualdades e marginalização de nacionais no próprio território.
