Violência em Cabo Delgado deixa marcas profundas na saúde mental da população

Desde 2017, a população de Cabo Delgado, no extremo norte de Moçambique, enfrenta uma realidade marcada pela violência constante, que afeta profundamente a saúde mental de quem vive, testemunha ou, em alguns casos, é obrigado a praticar atos violentos.

Nos últimos meses, os ataques têm se intensificado, atingindo distritos como Muidumbe, Chiúre e Ancuabe. Apesar da presença de tropas estrangeiras apoiando as Forças Armadas de Moçambique, a ONU estima que cerca de 100 mil pessoas tenham fugido da província desde o início do ano, mais da metade apenas em julho.

Mesmo nos campos de deslocados, os moradores enfrentam desafios graves relacionados à higiene, acesso à água potável, prevenção de doenças como o paludismo e, sobretudo, à saúde mental.

Para entender essa realidade, a RFI conversou com Simone Jacinto, psicólogo clínico do distrito de Balama, e Osvaldo de Sousa, técnico de Medicina Geral ligado à organização Médicos Sem Fronteiras, que esteve recentemente em Chiúre.

De Sousa relata: “Encontramos pessoas com necessidades quase todas. Nosso foco foi tratar os doentes e implementar medidas preventivas, desde a promoção de saúde física e mental até saneamento básico.” Ele enfatiza que muitos deslocados apresentam sinais claros de stress pós-traumático, ansiedade e medo constante quanto ao futuro, enquanto vivem com recursos mínimos.

O psicólogo acrescenta que o impacto psicológico nas crianças é particularmente grave. “Elas podem desenvolver transtornos de agressividade, ter dificuldades na escola e sofrer traumas profundos por experiências que não deveriam vivenciar. Muitas são raptadas e utilizadas como crianças-soldado, sendo instrumentalizadas para ações agressivas que não correspondem à sua idade, comprometendo seu futuro.”

Segundo Simone Jacinto, mesmo aqueles que não sofreram ataques diretos vivem com medo permanente. “Quem reside em Cabo Delgado não vive normalmente. Estamos todos em constante vigilância, temendo pelo que pode acontecer a qualquer momento.”

Ambos especialistas destacam que é urgente criar equipes de saúde mental e programas de apoio multidisciplinar, incluindo terapias, ocupação para crianças, alimentação adequada e melhores condições de vida.

De Sousa conclui: “Este problema não deve ser ignorado. As crianças vivem atormentadas com insônia e ansiedade. É necessário sensibilizar a sociedade sobre a importância do cuidado com a saúde mental e atuar de forma preventiva e contínua.”

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