Moçambique negoceia conversão de dívida de 1,4 mil milhões de dólares à China para Yuans

Moçambique está a considerar reestruturar a sua dívida de 1,4 mil milhões de dólares com a China — o seu maior credor bilateral — através da conversão dos empréstimos para renminbi (yuan), alinhando-se com estratégias semelhantes adotadas recentemente por outras nações africanas.

​Em resposta a questões levantadas no fim de semana, o Ministério das Finanças de Moçambique confirmou que a transição cambial é uma “possibilidade válida que foi colocada em cima da mesa”, acrescentando que este tipo de alternativa é, por norma, sugerida pelo parceiro de cooperação.

Crise de Liquidez e Risco de Incumprimento

A economia moçambicana enfrenta um forte aperto de liquidez. Nas últimas semanas, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial alertaram que a dívida pública do país se tornou insustentável devido ao acumular de pagamentos em atraso. Este cenário levou a agência Fitch Ratings a agravar, no mês passado, a sua avaliação sobre a capacidade de crédito do país, considerando que um incumprimento financeiro (default) é provável.

​A alteração da dívida de dólares para yuan insere-se num contexto mais amplo dos esforços de Pequim para internacionalizar a sua moeda e contornar a atual hegemonia do dólar. O Quénia, por exemplo, converteu no ano passado três empréstimos do Export-Import Bank of China — avaliados inicialmente em 5 mil milhões de dólares — para renminbi, conseguindo assim reduzir os custos de serviço da dívida e atenuar a pressão cambial. A Etiópia está a avaliar uma estratégia idêntica, enquanto a Zâmbia (que começou a aceitar o pagamento de impostos sobre a mineração em yuan) também já manteve conversações com a China para um swap cambial.

​Apesar destes avanços, os dados do FMI mostram que o yuan ainda representa menos de 2% das reservas cambiais globais, muito longe dos 56,8% detidos pelo dólar. Ainda assim, no último trimestre de 2025, a moeda chinesa ganhou três pontos base na sua quota global, enquanto o dólar norte-americano recuou 16 pontos base.

Troca de Dívida por Desenvolvimento

Além da conversão cambial, o país da África Oriental, rico em gás natural, está a negociar com Pequim um acordo de “troca de dívida por desenvolvimento”. Caso se concretize, Moçambique poderá ser um dos primeiros países do continente a selar este tipo de compromisso com a China, seguindo o exemplo do Egito, que assinou um memorando de entendimento com a potência asiática no ano passado.

​O governo moçambicano está atualmente a desenhar um projeto inicial focado em beneficiar crianças. O Ministério das Finanças sublinhou a intenção de expandir este mecanismo para converter parcelas da dívida em investimentos estratégicos noutras áreas cruciais, como a agricultura, energia, infraestruturas resilientes, desenvolvimento social, saúde, educação e gestão de riscos climáticos. A Embaixada da China não respondeu aos pedidos de comentário sobre estas negociações.

Contexto Político e Pressão Financeira Futura

As discussões ganharam força no mês passado durante a visita da Ministra das Finanças, Carla Loveira, e do Presidente Daniel Chapo à China. O principal foco da viagem foi a reestruturação desta dívida, que no final de 2024 se situava nos 1,4 mil milhões de dólares (segundo dados do FMI).

​Embora Moçambique detenha algumas das mais ricas reservas de gás natural de África — com um consórcio liderado pela TotalEnergies e pela Exxon Mobil a planear investimentos na ordem dos 50 mil milhões de dólares para a sua exploração —, os projetos têm sofrido atrasos sucessivos. As exportações de combustível só deverão arrancar no final desta década.

​A urgência do país em reorganizar as suas finanças é agravada pelo facto de um título obrigacionista (Eurobond) de 900 milhões de dólares começar a ser amortizado a partir de 2028, exigindo pagamentos anuais de 225 milhões de dólares. Face a este cenário, o governo procura agora garantir um novo programa de financiamento junto do FMI, após ter abandonado o acordo anterior no ano transato.

Baseado na reportagem original de Tavares Cebola para a Bloomberg News, publicada a 5 de maio de 2026.

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