A Comissão Política da Frelimo extinguiu os órgãos do partido desde as células até à direção provincial. O processo abre caminho para novas eleições internas e expõe a profundidade da crise organizacional no maior bastião eleitoral da Frelimo.
Numa decisão que abala as estruturas do partido naquele que é o seu mais histórico reduto eleitoral, a Comissão Política da Frelimo decidiu extinguir, com efeitos imediatos, todos os órgãos da organização política na província de Gaza, dando início a um amplo processo de reestruturação destinado à eleição de novas lideranças.
A medida consta de um guião oficial aprovado durante a 69.ª Sessão Ordinária da Comissão Política, realizada a 29 de maio último, em Macaneta, província de Maputo. O documento estabelece que o guião tem como objetivo orientar a implementação da decisão da Comissão Política relativa à cessação dos órgãos da Frelimo na província de Gaza e à consequente eleição dos novos órgãos.
A decisão da Comissão Política surge num contexto de prolongada turbulência interna na Frelimo em Gaza, uma crise que, segundo membros e quadros do partido, se arrasta há cerca de quatro anos.
No centro das contestações esteve a liderança do primeiro-secretário provincial, Daniel Matavele, alvo de críticas e acusações de uma alegada gestão controversa da organização partidária. Entre as principais reclamações apresentadas por militantes figuram alegações de favorecimento de determinados quadros nos processos internos de promoção política.
Uma das situações mais contestadas foi a alegada inclusão de familiares e pessoas próximas nas listas para a Assembleia da República. Militantes críticos do processo alegam que entre os beneficiários estaria Ivan Jones Matavele, filho do primeiro-secretário provincial, cuja ascensão política terá sido apontada por sectores internos como resultado de um processo marcado, segundo dizem, por favorecimentos e falta de transparência.
A deliberação representa uma intervenção sem precedentes recentes numa província considerada, durante décadas, um dos maiores bastiões políticos da Frelimo. A decisão surge numa altura em que o partido procura revitalizar as suas estruturas internas e responder a desafios organizacionais que vinham sendo reportados a nível provincial.
O documento determina que, durante a fase de transição, a condução política da província passe a ser assegurada pela Brigada Central destacada para Gaza, cuja chefe assume a responsabilidade de coordenar todo o processo. Segundo o guião, a chefe da Brigada Central dirige a província até à eleição dos novos órgãos.
A operação prevê a realização de reuniões e conferências em todos os escalões da organização partidária, desde as células até à conferência provincial, momento em que serão eleitos os novos dirigentes.
Mais do que uma simples renovação de quadros, o documento deixa transparecer a intenção de promover mudanças profundas no funcionamento interno da organização. Entre as orientações distribuídas às brigadas encarregadas da missão consta a necessidade de incentivar a participação dos membros e de desencorajar práticas consideradas prejudiciais à democracia interna. O documento refere ainda que as brigadas devem desencorajar candidaturas únicas e promover a livre participação dos membros e militantes nos processos eleitorais.
A Comissão Política pretende ainda que a reorganização sirva para reforçar a disciplina interna e recuperar a dinâmica das estruturas partidárias na província. Entre as mensagens a transmitir aos militantes destacam-se o reforço da unidade, o rejuvenescimento dos órgãos e o cumprimento rigoroso dos estatutos do partido.
A decisão poderá representar uma das mais profundas reconfigurações políticas internas da Frelimo em Gaza dos últimos anos. Ao extinguir simultaneamente todos os órgãos provinciais, o partido reconhece implicitamente a necessidade de uma renovação estrutural num território que sempre foi considerado um dos seus mais sólidos pilares eleitorais.
O processo deverá culminar com a eleição de uma nova direção provincial, chamada a liderar uma organização que procura recuperar dinamismo e restaurar a confiança das suas bases num momento particularmente sensível da vida política moçambicana.
