A província de Cabo Delgado, no norte de Moçambique, registou um novo e preocupante aumento da violência armada. De acordo com o mais recente relatório da organização ACLED (projeto de monitorização de conflitos), foram contabilizados 11 incidentes violentos nas últimas duas semanas (período de 6 a 27 de abril de 2026), resultando em nove vítimas mortais.
Quase a totalidade destas ações (10 das 11) foi levada a cabo por elementos ligados ao Estado Islâmico em Moçambique (EIM). Com estes novos dados, o balanço trágico da insurgência, iniciada em outubro de 2017, sobe para 6.527 óbitos num total de 2.356 eventos violentos.
A Estrada N380: A Linha que Divide a Violência
O relatório da ACLED destaca um detalhe estratégico relevante: a estrada N380 está a funcionar como uma fronteira de comportamento para os insurgentes.
- A Oeste da N380: O EIM adota uma postura extremamente agressiva. É nesta zona que a Força Local (ligada à FRELIMO) oferece maior resistência.
- A Este da N380: O grupo exerce maior controlo e, curiosamente, as suas intervenções são descritas como muito menos violentas.
Ataques em Macomia e Meluco:
Entre os dias 10 e 14 de abril, cerca de 100 homens armados atacaram quatro aldeias a oeste de Macomia, incluindo Nkoe, Nguida e Chicomo, além de Iba (no distrito de Meluco). Pelo menos seis civis foram assassinados e dois raptados. O grupo seguiu depois em direção às zonas mineiras de Minhanha e Ravia.
Reaparecimento em Nangade e o “Fator Tanzânia”
Após meses de relativa acalmia, o distrito de Nangade voltou a ser alvo de movimentações terroristas.
- Detenções: A 14 de abril, as autoridades capturaram 10 tanzanianos suspeitos de integrarem as fileiras insurgentes perto de Mandimba.
- Saques por Alimentos: Ataques em Machava e Nkonga sugerem que os rebeldes estão focados em obter mantimentos. Segundo a ACLED, tratam-se de recrutas vindos da Tanzânia que descem para sul, em direção a Macomia, e usam estas incursões para garantir a logística da viagem.
O Caminho do Diálogo: A Visão de Daniel Chapo
Apesar da riqueza em recursos naturais (gás), Cabo Delgado continua mergulhada num ciclo de violência que dura há oito anos. Perante este cenário, o Presidente moçambicano, Daniel Chapo, reiterou recentemente a sua abertura para uma solução negociada.
Em entrevista concedida no Porto (Portugal), à margem de uma cimeira bilateral, Chapo não descartou a via do diálogo, sublinhando que o objetivo maior é a paz.
”Moçambique é uma nação com uma experiência extraordinária nesta área. Tivemos uma guerra de desestabilização que durou cerca de 16 anos e terminou através do diálogo com os Acordos de Roma em 1992″, recordou o estadista, sugerindo que a história do país pode servir de guia para resolver o terrorismo no norte.
