Greve a Caminho: Motoristas da Yango preparam paralisação em Maputo contra tarifas baixas e combustível caro

​O clima de tensão agudiza-se entre os motoristas parceiros da plataforma de mobilidade Yango na cidade e na província de Maputo. Movidos por um descontentamento crescente, os operadores estão a organizar uma greve geral agendada para o próximo dia 27 de maio. Na base dos protestos estão as tarifas consideradas irrisórias geradas pela aplicação, o agravamento substancial do custo dos combustíveis e a recusa da empresa em abdicar da taxa de serviço de 17% cobrada sobre cada corrida.

Crise de Combustíveis Agrava Margens de Lucro

​O atual cenário económico em Moçambique tem fustigado duramente o setor dos transportes. Os recentes e acentuados aumentos fixaram o preço da gasolina nos 93,86 meticais e o do gasóleo nos 116,25 meticais por litro. A esta escalada de preços junta-se uma crise de abastecimento que se arrasta há mais de um mês, forçando os automobilistas a enfrentar longas filas e a percorrer grandes distâncias à procura de postos com stock.

​“Com a falta de combustível, se não abasteço na zona, na cidade é difícil”, relatou um dos condutores afetados.

“Não Têm Coração”: A Revolta Contra os 17%

​A grande revolta dos motoristas direciona-se à política de retenção da aplicação. Os profissionais exigem uma atualização urgente da tabela de preços a seu favor para fazer face aos custos de operação. Atualmente, queixam-se de que a Yango gera tarifas excessivamente baixas e, ainda assim, deduz de forma automática uma comissão fixa de 17% em todas as viagens.

​Num dos grupos de WhatsApp criados para coordenar a paralisação, um operador não escondeu a sua indignação: “Os representantes da Yango em Moçambique não têm coração. Com a subida do combustível, agravada pela escassez existente, fazemos uma viagem de 60 meticais e, por cima disso, ainda tiram 17%”.

​O sentimento de desespero é generalizado, quer entre os proprietários das viaturas, quer entre aqueles que conduzem carros alheios. Jaime Afonso, um dos parceiros da plataforma, desabafou: “Estes dias estão difíceis. A Yango está a pagar muito pouco e os descontos mantêm-se nos 17% para eles”. No mesmo tom, o motorista Alfredo Cossa resumiu a situação de forma nua e crua: “Só trabalhamos, mas não ganhamos nada”.

​Apesar das dificuldades, há quem continue na estrada por pura falta de alternativas: “É mesmo para não ficar em casa, senão enlouqueço, mas isto não está bom”, confessou outro condutor.

Táticas de Sobrevivência e Conflitos com Passageiros

​Para tentar contornar os parcos rendimentos, muitos condutores — sobretudo os que têm de prestar contas aos donos dos veículos — recorrem à negociação direta com os passageiros para inflacionar o valor estabelecido pela aplicação. Esta tática de sobrevivência, no entanto, tem gerado atritos constantes e manchado a experiência de utilização.

​”Nós que temos carros de dono sobrevivemos através da negociação de preços”, explicou um operador, admitindo os riscos da prática: “Há pouco tempo, uma passageira complicou-me muito a vida só porque lhe pedi 100 meticais”.

Desgaste de uma Alternativa de Mobilidade

​Presente no mercado moçambicano desde 2022, a Yango surgiu como uma alternativa moderna e viável ao serviço de táxi tradicional, prometendo suprir as deficiências dos transportes públicos. Contudo, a lua de mel parece ter chegado ao fim. O desgaste na relação com os parceiros tem vindo a acentuar-se de ano para ano, e a redução drástica das margens de lucro já forçou muitos motoristas a abandonarem a atividade. Resta agora saber se a ameaça de greve será suficiente para levar a empresa à mesa de negociações.

Outras Notícias do Autor

Solenta Aviation Quebra o Silêncio: Companhia desmente saída de Moçambique e prepara base operacional no Aeroporto da Beira.

João Lourenço proíbe saídas ao exterior de ministros e generais sem autorização prévia

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *