Empresários defendem maior acesso ao financiamento, formação em gestão, protecção da propriedade intelectual e abertura de mercados para dinamizar a indústria cultural e criativa em Moçambique.
A indústria cultural e criativa moçambicana tem potencial para se afirmar como um importante segmento da economia nacional, mas continua a enfrentar desafios relacionados com o acesso ao financiamento, formalização empresarial, gestão, protecção da propriedade intelectual e acesso aos mercados.
A avaliação foi apresentada pelo Presidente da Associação Moçambicana das Pequenas e Médias Empresas (PME), Pedro Silva, durante o segundo dia do evento de moda Fancy Africa Moçambique, em Maputo, num painel dedicado às “Políticas Públicas e Desenvolvimento da Indústria”.
Para Pedro Silva, o desenvolvimento da economia criativa exige uma abordagem empresarial que vá além da valorização dos artistas. O sector, segundo explicou, envolve uma cadeia de profissionais e empresas que inclui músicos, estilistas, artesãos, produtores, empresários e outras actividades que geram rendimento para numerosas famílias.
«“Na indústria cultural e na indústria criativa existe muito por fazer. Não podemos esquecer que a indústria cultural não são apenas artistas e músicos. São estilistas, artesãos, empresários, mas também são famílias que vivem dessa actividade.”»
Um mercado com potencial por explorar
O dirigente das PME considera que Moçambique dispõe de activos culturais capazes de gerar negócios e conquistar mercados nacionais, regionais e internacionais. Para que esse potencial se transforme em actividade económica sustentável, defende a criação de um programa específico para PME culturais e criativas.
A iniciativa deveria, entre outras prioridades, facilitar a formalização das empresas, melhorar o acesso ao financiamento e proporcionar formação em gestão empresarial.
A profissionalização da actividade é considerada fundamental para que os agentes da economia criativa possam estruturar os seus negócios, aumentar a capacidade de produção e competir por oportunidades dentro e fora do país.
Pedro Silva defende igualmente uma maior integração das PME nacionais nos processos de contratação de grandes instituições e empresas, através de mecanismos que privilegiem fornecedores nacionais e, quando aplicável, africanos.
Propriedade intelectual continua a ser desafio
Outro aspecto considerado estratégico é a protecção da propriedade intelectual. Para Pedro Silva, a ausência de mecanismos eficazes de protecção pode desencorajar a inovação e colocar os criadores em situação de vulnerabilidade.
«“Temos criativos que têm boas ideias e depois vem alguém com maior capacidade financeira e rouba o seu projecto. Esses criativos têm que ser protegidos.”»
Na perspectiva empresarial, a protecção dos direitos de autor e de outros activos de propriedade intelectual constitui uma condição importante para transformar criatividade em activos económicos capazes de gerar receitas e investimento.
Internacionalização da produção nacional
A internacionalização das empresas e dos produtos criativos moçambicanos surge igualmente como uma oportunidade. Pedro Silva relaciona esta necessidade com o objectivo de aumentar a presença de empresários moçambicanos nos mercados africanos e internacionais.
Para o responsável, o país possui uma base cultural e artística com potencial para competir além-fronteiras, mas necessita de maior promoção, organização empresarial e acesso a canais de mercado.
«“O nosso país é rico em cultura, é rico em indústria de entretenimento. Temos arte que é da melhor do mundo, mas temos que promover a mesma e começar a ter maior participação.”»
Mais público, mais mercado
A expansão da indústria criativa passa também, segundo Pedro Silva, por uma maior participação do público nos eventos culturais e de entretenimento. Concertos, teatro, desfiles de moda e outras manifestações culturais representam não apenas espaços de expressão artística, mas também oportunidades de negócio para diferentes intervenientes da cadeia de valor.
O responsável apelou, por isso, a uma maior divulgação das iniciativas do sector e ao envolvimento do empresariado nacional na promoção dos produtos e serviços criativos produzidos em Moçambique.
A discussão sobre o desenvolvimento da indústria criativa ocorreu num painel que contou também com a participação do Director Nacional de Artes e Cultura, Ivan Bonde, do Administrador Delegado da FDC, Diogo Milagre, e da representante do IPEME, Sandra Estorinho.
Para os agentes económicos do sector, o desafio passa agora por transformar o potencial cultural existente no país em negócios sustentáveis, capazes de criar emprego, gerar rendimento e ampliar a presença da produção moçambicana nos mercados regionais e internacionais.
