A Al Mansour Holding, conglomerado pouco conhecido do Catar, anunciou em agosto um pacote de investimentos avaliados em 103 mil milhões de dólares para seis países africanos, incluindo 20 mil milhões destinados a Moçambique. Apesar da dimensão da promessa — equivalente a quase todo o PIB anual moçambicano — o anúncio tem gerado mais desconfiança do que entusiasmo, em virtude da ausência de detalhes concretos.
Até ao momento, não existem contratos formais, cronogramas de execução, fontes de financiamento identificadas ou qualquer histórico relevante da empresa que comprove a capacidade de mobilizar tais valores. Em Moçambique, o compromisso foi divulgado como sinal de confiança externa, mas permanece rodeado de incertezas. Os sectores anunciados como prioritários são energia, agricultura e infraestruturas, contudo não foram apresentados projetos específicos nem garantias de boa governação.
O valor prometido ao país é comparável ao megaprojeto Mozambique LNG, liderado pela TotalEnergies, cujo processo de maturação levou anos até a decisão final de investimento em 2020 e que permanece suspenso devido à insegurança em Cabo Delgado.
Antes de Moçambique, a holding anunciou montantes semelhantes na República Democrática do Congo (21 mil milhões), Zâmbia e Zimbabué (19 mil milhões cada), Botsuana (12 mil milhões) e Burundi (12 mil milhões). No entanto, em todos os casos, os compromissos assumiram a forma de memorandos de entendimento ou cartas de intenção, sem força vinculativa.
Sheikh Mansour bin Jabor bin Jassim Al Thani, líder do grupo e apresentado como primo do Emir do Catar, esteve no centro da tournée africana. Aos 36 anos, é formado em Direito e possui um histórico empresarial limitado, sem registos de condução de projetos de grande porte. Segundo uma investigação, o único investimento comprovado da holding foi a compra de 19,9% da empresa australiana Invictus Energy, avaliado em 37,8 milhões de dólares — um valor irrisório perante os montantes agora prometidos.
Para o sociólogo moçambicano Elísio Macamo, o anúncio deve ser encarado com cautela. O académico questiona se os fundos representam investimento direto ou se, na prática, podem resultar em novos endividamentos, aumentando a vulnerabilidade financeira do país. Macamo recorda que Moçambique já viveu experiências negativas com promessas milionárias que se transformaram em dívidas ocultas e escândalos financeiros.
“A nossa história recente recomenda prudência. Não é a primeira vez que promessas grandiosas acabam em incumprimentos e encargos pesados para o Estado”, alertou, defendendo maior transparência por parte do governo na gestão destes anúncios.
Enquanto alguns governos africanos celebram a aproximação do Catar, especialistas e analistas sublinham que a falta de provas sobre a solidez financeira da Al Mansour Holding levanta sérias dúvidas sobre a viabilidade das promessas. Para já, permanece a questão: trata-se de um investimento estratégico genuíno ou apenas de um exercício diplomático com objetivos ainda obscuros?
