“Melhor os grandes”: Mensagens revelam como funcionários das Finanças escolhiam as facturas para roubar

Uma megaoperação levada a cabo na passada quinta-feira, em Maputo, culminou na detenção de pelo menos sete funcionários do Ministério das Finanças. A acção conjunta foi liderada pelo Gabinete Central de Combate à Corrupção (GCCC), com o forte apoio do Serviço Nacional de Investigação Criminal (SERNIC) e da Polícia da República de Moçambique (PRM), com o objectivo de desmantelar uma rede de extorsão instalada no coração do Estado.

​Em causa está um processo-crime focado na cobrança de “comissões” ilegais para agilizar o pagamento de facturas do Estado a fornecedores de bens e serviços.

A “Portagem” Clandestina no Tesouro

​Segundo os investigadores, os principais alvos desta operação são funcionários afectos à Direcção Nacional do Tesouro. Estes indivíduos criaram um sistema paralelo – uma verdadeira “portagem” institucional – onde o processamento dos pagamentos públicos ficava retido até que os empresários, frequentemente desesperados com anos de atraso nas suas facturas, aceitassem pagar subornos para verem os seus fundos libertados.

​As taxas cobradas por esta rede criminosa não eram aleatórias, variando de forma sistemática entre 2% a 10% do valor total da factura a ser paga.

Código de Corrupção: “Capulanas” e Negócios Grandes

​Novos dados da investigação, revelados através de mensagens interceptadas e partilhadas pelo Evidências, expõem o modus operandi do grupo. Para tentarem despistar as autoridades, os envolvidos utilizavam linguagem codificada para negociar os subornos:

  • “Capulanas” ou “Quilos”: Termos usados como código para dinheiro. Uma mensagem referindo “50 capulanas”, por exemplo, significava a exigência de 50 mil meticais.

​As comunicações revelam ainda a ganância do grupo, que instruía os intermediários a focarem-se em facturas de valores mais elevados. Numa das mensagens interceptadas, a orientação é clara: “Melhor esses grandes, compensam mais”, evidenciando que a prioridade da rede era maximizar o lucro através das facturas mais avultadas do Estado.

​Os intermediários desempenhavam aqui uma função crucial, servindo de ponte para chantagear os empresários e negociar com os funcionários com poder de decisão no Tesouro.

Lockdown no Ministério e Buscas no CEDSIF

​A operação desenrolou-se com grande aparato e secretismo. Eram cerca das 15h00 quando os agentes do SERNIC invadiram o Ministério das Finanças, ordenando o bloqueio total das instalações. Ninguém foi autorizado a sair até ao término das diligências, uma táctica habitual para evitar a destruição de provas vitais.

Simultaneamente, o Centro de Desenvolvimento de Sistemas de Informação de Finanças (CEDSIF) – o motor tecnológico da gestão financeira do Estado – foi alvo de buscas e apreensões. Neste departamento, as investigações apontam para o topo da hierarquia, visando quadros seniores e membros do Conselho de Administração, sob suspeita de envolvimento activo no esquema de corrupção, desvio de fundos públicos e facilitação de pagamentos ilícitos.

Foto: Evidências

Fonte: Evidências

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