Washington / Maputo, 24 de abril de 2026 — O Fundo Monetário Internacional (FMI) confirmou que enviará uma equipa técnica a Moçambique no próximo mês de Junho. O objetivo da missão é dar continuidade e avançar nas negociações para um novo programa de financiamento, num momento em que o país enfrenta uma pressão financeira asfixiante, marcada pelo endividamento galopante e pela retração da economia.
Contexto de Crise e Negociações em Washington
Segundo um porta-voz do Fundo em declarações à Reuters, as discussões preliminares ocorreram durante as Reuniões de Primavera, em Washington. O foco esteve no impacto do conflito no Médio Oriente sobre a economia moçambicana e nas formas como o FMI poderá apoiar as autoridades de Maputo daqui em diante.
”As discussões continuarão nos meses que se seguem”, afirmou o porta-voz, classificando o diálogo inicial como “produtivo”.
Indicadores de Alerta: Dívida e Risco País
Moçambique atravessa um período de stress financeiro severo. Dados do JPMorgan revelam que o spread dos títulos soberanos do país face aos títulos do Tesouro dos EUA está num nível alarmante de 1.185 pontos base, o que sinaliza um elevado risco de incumprimento (distress) para os investidores internacionais.
A situação macroeconómica apresenta outros sinais de alerta:
- Recessão: A economia moçambicana contraiu cerca de 0,5% em 2025, segundo dados do Banco de Moçambique e do próprio FMI.
- Dívida Pública: Em fevereiro, o rácio da dívida pública em relação ao PIB estava fixado em 91%.
- Dependência Interna: Os empréstimos do Banco Central ao Governo dispararam 176,1%, atingindo os 49,6 mil milhões de meticais.
As Raízes do Problema: Dívidas Ocultas e Gás
Os desafios financeiros atuais são indissociáveis do escândalo das “Dívidas Ocultas” de 2016, que destruiu a confiança dos investidores e fechou as portas dos mercados internacionais de capitais. A situação foi agravada pelos sucessivos atrasos nos grandes projetos de gás natural, que eram vistos como a “salvação” para as receitas do Estado e o equilíbrio das contas públicas.
Como resposta, Moçambique autorizou em outubro passado a contratação da consultora Alvarez & Marsal para prestar assessoria na gestão e reestruturação da sua dívida.
Condições para o Novo Acordo
O último programa de assistência do FMI terminou no início de abril de 2025. O novo acordo depende agora da implementação de reformas económicas profundas. O porta-voz do FMI sublinhou as prioridades para a estabilização do país:
- Consolidação Fiscal Rápida: Redução da despesa pública, mantendo a proteção às camadas mais vulneráveis.
- Flexibilidade Cambial: Maior liberdade na taxa de câmbio para reduzir pressões financeiras.
- Reformas Estruturais: Melhoria da governação e fomento de um crescimento liderado pelo setor privado.
Fonte: Reuters
