O Governo de Moçambique enfrenta um dilema financeiro e militar de extrema gravidade. Embora o Ruanda tenha garantido publicamente que as suas tropas vão continuar a combater o terrorismo na província de Cabo Delgado, a União Europeia (UE) cortou definitivamente o apoio financeiro a esta missão. Agora, o peso dos custos recairá sobre Moçambique, um país que, segundo especialistas, não tem capacidade para suportar esta pesada fatura.
O Recado de Kigali: Mais de 6.300 Militares e a Fatura Para Maputo
O anúncio da continuidade da operação foi feito pelo ministro dos Negócios Estrangeiros do Ruanda, Olivier Nduhungirehe, através da rede social X. O governante confirmou que o contingente ruandês já ultrapassa os 6.300 militares no terreno, mas frisou a urgência de se criar um “quadro de financiamento sustentável”.
Nduhungirehe não poupou críticas à Europa, acusando Bruxelas de “relutância” e de politizar os pedidos de ajuda. O ministro apontou a ironia da situação: são precisamente as empresas europeias (nomeadamente as francesas) que mais vão lucrar com a estabilidade e segurança garantidas pelos soldados ruandeses no Norte de Moçambique, e, paradoxalmente, é a Europa que vira as costas ao financiamento da missão. Até à data, os detalhes do acordo financeiro entre Maputo e Kigali permanecem no absoluto segredo.
A Sombra do Congo Afastou a União Europeia
Afinal, por que razão a UE fechou a torneira do financiamento? Em entrevista à DW África, Énio Chingotuane, pesquisador e professor do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais da Universidade Joaquim Chissano, explica que o problema não está em Moçambique. O esforço militar ruandês em Cabo Delgado é globalmente reconhecido e elogiado.
O verdadeiro motivo do afastamento europeu está ligado à República Democrática do Congo (RDC). A UE recusa-se a financiar o exército ruandês devido ao envolvimento e às ações militares de Kigali na RDC, atitudes que têm sido alvo de fortes condenações por parte dos Estados Unidos da América e de várias agências internacionais de Direitos Humanos.
Força “Insubstituível” Perante os Cofres Vazios de Moçambique
Sem o dinheiro europeu, a pressão recai sobre os cofres do Estado moçambicano. Chingotuane é perentório: “Neste momento, Moçambique não está em condições de prestar o apoio necessário às forças ruandesas. O país atravessa uma situação financeira não muito boa”. A salvação poderá passar por procurar novos parceiros internacionais com interesses na região para cobrir estas despesas.
Apesar da falta de dinheiro, abdicar das forças do Ruanda não é opção. O pesquisador sublinha que as tropas de Paul Kagame são, neste momento, insubstituíveis. O efetivo cresceu de mil homens (em 2021) para mais de seis mil, possuindo um vasto conhecimento no combate à guerrilha local. “Neste momento, o Exército moçambicano não consegue assumir sozinho um esforço equivalente”, afirma o especialista.
Abertura aos Negócios e Interesses a Longo Prazo
O empenho do Ruanda em Cabo Delgado também traz dividendos económicos. O envolvimento de Kigali já não se limita à esfera militar. Énio Chingotuane recorda que o próprio Governo de Moçambique se deslocou a Kigali para assinar acordos de parceria que abrem as portas para que os ruandeses invistam fortemente em Moçambique nos domínios económicos e financeiros, beneficiando das oportunidades geradas pela pacificação da região rica em gás natural. (Com informações da DW África).
